BRASIL — A disputa sobre a entrada de pneus importados no Brasil voltou ao centro do debate econômico. Fabricantes nacionais pressionam o governo federal para elevar de 25% para 35% a tarifa de importação sobre pneus de passeio, enquanto importadores afirmam que a medida pode aumentar preços e pesar no bolso dos motoristas.
O pedido foi apresentado nesta quarta-feira (20) ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços por representantes da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), que alegam perda acelerada de espaço para produtos importados, especialmente os de origem chinesa.
Segundo a entidade, a participação da indústria nacional caiu para 31% das vendas totais no primeiro quadrimestre de 2026, o menor nível da série histórica. Em 2019, os fabricantes instalados no país respondiam por cerca de 69% do mercado, enquanto os importados representavam 31%.
De acordo com a associação, as vendas de pneus produzidos no Brasil recuaram 5,8% nos quatro primeiros meses do ano, totalizando 11,9 milhões de unidades vendidas, cerca de 700 mil a menos do que no mesmo período de 2025.
A indústria argumenta que o avanço dos importados ameaça empregos, fábricas e fornecedores ligados ao setor automotivo.
Segundo a ANIP, o Brasil possui 19 fábricas de pneus distribuídas em sete estados, responsáveis por aproximadamente 35 mil empregos diretos e mais de 500 mil indiretos.
Os fabricantes também alegam concorrência desleal, citando suspeitas de dumping, descumprimento de regras ambientais e produtos vendidos abaixo do custo internacional de matéria-prima.
Além do aumento da tarifa, a entidade pede maior fiscalização sobre importações e medidas antidumping mais rápidas.
Por outro lado, a Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP) afirma que uma nova elevação do imposto será repassada diretamente ao consumidor.
Segundo a entidade, um pneu que custava R$ 500 teria passado para cerca de R$ 625 após o aumento tarifário dos últimos anos. Caso a alíquota suba para 35%, o preço poderia chegar a aproximadamente R$ 675, segundo cálculos do setor.
Os importadores argumentam que a medida afetaria principalmente motoristas de aplicativo, taxistas, frotistas e trabalhadores que dependem do carro para gerar renda, além de poder elevar custos logísticos e impactar a inflação.
Outro ponto levantado pela ABIDIP é que algumas medidas de pneus usadas em veículos mais antigos, como aros 13 e 14, teriam baixa produção nacional, o que poderia reduzir a oferta e encarecer ainda mais o produto.
A discussão repete um embate já visto no setor automotivo: de um lado, a indústria instalada no Brasil pede proteção para enfrentar produtos estrangeiros mais baratos; do outro, importadores defendem maior concorrência e afirmam que tarifas elevadas reduzem competitividade e encarecem produtos essenciais.
No caso dos pneus, especialistas do setor apontam que o impacto pode ser ainda mais sensível, já que o item está diretamente ligado à segurança veicular. O receio é que preços mais altos levem motoristas a adiar a troca dos pneus, aumentando riscos no trânsito.
Até o momento, o governo federal ainda não decidiu se irá reabrir a discussão sobre a elevação da tarifa de importação.