BRASIL — O Brasil registrou, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Segundo os dados divulgados pela entidade, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida em abril deste ano. O índice representa o quarto mês consecutivo de alta e supera os patamares observados desde 2022.
Além do aumento do endividamento, a inadimplência também preocupa. Cerca de 29,7% das famílias possuem contas em atraso, e 12,3% afirmam não ter condições financeiras de quitar os débitos acumulados.
Entre os principais fatores apontados para o avanço do problema estão os juros elevados, o crescimento do uso do cartão de crédito rotativo, a alta do custo de vida e o impacto das apostas online (bets) sobre o orçamento doméstico.
O cartão de crédito segue como principal causa das dívidas no país, sendo responsável pelo endividamento de 83,6% das famílias, segundo a CNC. As taxas do crédito rotativo podem ultrapassar 400% ao ano, tornando-se uma das modalidades mais caras do sistema financeiro brasileiro.
Dados do Banco Central apontam que quase um terço da renda das famílias brasileiras já está comprometido com pagamento de dívidas. No fim de 2025, esse percentual chegou a 29,7% da renda mensal.
Especialistas afirmam que o problema ultrapassa a esfera do consumo e já impacta diretamente o crescimento econômico, a geração de empregos e a capacidade de investimento das famílias.
Outro fator que ganhou peso nos últimos anos foi o avanço das plataformas de apostas esportivas. Um estudo da CNC estima que cerca de R$ 30 bilhões por mês deixaram de circular no consumo tradicional para abastecer sites de apostas desde a regulamentação do setor.
Diante do cenário, o governo federal lançou, em maio deste ano, o Novo Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas de famílias, estudantes e pequenos negócios.
A iniciativa permite descontos de até 90% nos débitos, redução dos juros e até o uso do FGTS como forma de pagamento. Entre as novidades, quem aderir ao programa terá o CPF bloqueado para apostas online por 12 meses.
No Congresso Nacional, parlamentares também discutem medidas estruturais para conter o superendividamento. Entre os projetos em debate estão propostas para ampliar a educação financeira nas escolas e redefinir o chamado “mínimo existencial”, valor da renda que não pode ser comprometido com pagamento de dívidas.
Para o senador Flávio Arns (PSB-PR), programas emergenciais ajudam, mas não resolvem o problema de forma definitiva.
— Precisamos avançar em mecanismos permanentes de proteção às famílias e educação financeira para evitar o efeito bola de neve das dívidas — afirmou.
Já o senador Rogério Marinho (PL-RN) critica os programas de renegociação e afirma que eles não atacam as causas estruturais do problema.
— O resultado é que, dois anos depois, o calote das dívidas renegociadas voltou a crescer — declarou.
Economistas apontam que uma solução duradoura depende da redução sustentável dos juros, equilíbrio fiscal e maior acesso ao crédito com custos mais baixos.