
BRASIL — Localizado no extremo Norte de Roraima, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, o município de Uiramutã voltou a ocupar, pelo terceiro ano consecutivo, a última colocação do país no Índice de Progresso Social (IPS), levantamento que mede a qualidade de vida nos municípios brasileiros.
Com nota 42,44, Uiramutã foi apontado como o município com pior qualidade de vida do Brasil em 2026. Apesar disso, moradores contestam o rótulo e defendem o território como um lugar marcado pela paz, segurança e forte pertencimento cultural.
O IPS avalia indicadores ligados às necessidades humanas básicas, bem-estar e oportunidades, considerando fatores como saneamento, acesso à saúde, educação, segurança e infraestrutura.
Com população majoritariamente indígena — 96,6% dos habitantes se autodeclaram indígenas — o município apresenta características distintas das grandes cidades brasileiras e enfrenta desafios históricos relacionados ao isolamento geográfico e à oferta de serviços públicos.
Chegar a Uiramutã não é simples. O município fica a mais de 300 quilômetros da capital Boa Vista, com mais de cinco horas de percurso em estradas de terra marcadas por lama, buracos e atoleiros, especialmente durante o período chuvoso.
O difícil acesso afeta diretamente o custo de vida local. O combustível é um dos mais caros do estado, ultrapassando R$ 9 por litro, além de impactar o abastecimento de alimentos, medicamentos e serviços.
Recentemente, o município decretou situação de emergência após enchentes isolarem milhares de moradores e comunidades indígenas.
Na sede do município, moradores relatam dificuldades frequentes com o abastecimento de água. Em alguns bairros, famílias chegam a passar dias sem água nas torneiras e dependem de caminhões-pipa particulares ou reservatórios improvisados.
A escassez também afeta comunidades indígenas espalhadas pelo território, onde o acesso a serviços públicos é dificultado pela distância e pela logística.
Na saúde, casos mais complexos precisam ser encaminhados para Boa Vista. Já a rede de assistência social enfrenta sobrecarga e escassez de profissionais especializados.
Apesar das dificuldades, moradores destacam a segurança e a tranquilidade como fatores importantes para a qualidade de vida local.
“Moro aqui há quase 30 anos e não penso em sair. Aqui tem paz”, relatou um morador ouvido pela reportagem do g1.
Comércios locais e lideranças afirmam que o município possui grande potencial turístico, com cachoeiras, serras e áreas preservadas, mas o acesso ruim acaba afastando visitantes.
A prefeitura argumenta que parte dos indicadores usados em rankings nacionais não considera as especificidades culturais das comunidades indígenas.
Especialistas, porém, alertam que diferenças culturais não podem servir de justificativa para ausência de políticas públicas.
Para antropólogos ouvidos pela reportagem, é possível respeitar tradições e modos de vida indígenas sem ignorar demandas por saneamento, infraestrutura, água tratada, proteção social e acesso à saúde.