Uma paciente de 33 anos diagnosticada com leucemia morreu sem receber um medicamento já incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e garantido por decisão judicial. O caso reacendeu o debate sobre atrasos no fornecimento de terapias oncológicas no Brasil e levou uma associação de pacientes a denunciar a situação à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Larissa Amorim lutava contra a leucemia desde a infância. Após mais de duas décadas convivendo com a doença, o quadro se agravou em 2025, evoluindo para uma forma agressiva da enfermidade. Médicos indicaram o uso do blinatumomabe, imunoterapia considerada essencial para conter a progressão da doença e permitir um transplante de medula óssea.
Segundo a família, o medicamento já havia sido incorporado ao SUS e uma decisão judicial determinava o fornecimento imediato. Mesmo assim, o tratamento não chegou. Entre a intimação da União e a morte da paciente, passaram-se 59 dias.
De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem do g1, no tratamento do câncer o tempo é considerado fator decisivo. O blinatumomabe é indicado justamente em casos mais graves, quando outras terapias já falharam, funcionando como uma alternativa para controle da doença e preparação para transplante.
A Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) afirma que o caso não é isolado. A entidade protocolou representação na Procuradoria-Geral da República pedindo investigação sobre atrasos na entrega de medicamentos já aprovados pelo SUS.
Segundo a associação, pacientes aguardam por terapias incorporadas ao sistema há meses e, em alguns casos, por anos. Atualmente, a Abrale acompanha 185 pacientes com dificuldades de acesso a tratamentos já reconhecidos pelo próprio Estado.
A legislação estabelece prazo de até 180 dias para que medicamentos aprovados sejam disponibilizados após incorporação ao SUS. No caso de tratamentos contra o câncer, a implementação deve ocorrer em regime prioritário.
O Ministério da Saúde informou que trabalha na ampliação da oferta de medicamentos oncológicos e anunciou a inclusão gradual de 23 novos remédios de alto custo na rede pública a partir de outubro. A pasta, no entanto, não esclareceu por que o medicamento indicado para Larissa não foi disponibilizado, apesar da decisão judicial.
A discussão sobre acesso a terapias ganhou ainda mais relevância após a sanção do Estatuto dos Direitos do Paciente, em 2026, que garante acesso à saúde “em tempo oportuno” e considera a ausência de atendimento adequado uma possível violação de direitos humanos.