BRASIL — As vacinas de RNA mensageiro, tecnologia que ganhou notoriedade durante a pandemia de covid-19, podem representar a próxima grande revolução no tratamento do câncer. A avaliação é do médico patologista Victor Piana, CEO do A.C. Camargo Cancer Center, uma das principais instituições oncológicas do país.
Segundo o especialista, a proposta dessas vacinas é estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater células cancerígenas de forma mais eficiente, criando uma nova estratégia terapêutica que poderá complementar ou, em alguns casos, reduzir a necessidade de tratamentos tradicionais.
Piana explica que os avanços da genética e da biologia molecular transformaram a oncologia nas últimas décadas. Atualmente, os médicos conseguem identificar alterações específicas nos genes das células tumorais, permitindo o desenvolvimento de terapias mais precisas e personalizadas.
Além das vacinas de RNA, outras tecnologias avançadas vêm ampliando as possibilidades de tratamento, como a terapia CAR-T Cell, considerada uma das mais modernas no combate a determinados tipos de câncer. Embora ainda tenha custos elevados, especialistas acreditam que novas gerações da tecnologia deverão tornar o tratamento mais acessível nos próximos anos.
No caso das vacinas de RNA, a expectativa é que elas possam ser utilizadas após cirurgias para estimular continuamente o sistema imunológico a identificar e eliminar células tumorais remanescentes, reduzindo riscos de recorrência da doença.
O especialista destacou que a base científica para as vacinas desenvolvidas durante a pandemia surgiu justamente a partir de pesquisas voltadas ao tratamento do câncer. Agora, diversos centros internacionais retomam esses estudos com foco específico na oncologia.
Uma das iniciativas mais promissoras envolve pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que trabalham no desenvolvimento de vacinas de RNA para diferentes tipos de tumores. O primeiro estudo clínico voltado ao câncer de pulmão deverá entrar em fase inicial de testes em breve.
O Brasil busca participar dessas pesquisas por meio de uma articulação que reúne o Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional de Câncer (Inca), hospitais de referência e centros de pesquisa científica.
De acordo com Piana, a tradição brasileira na produção de vacinas e a diversidade da população podem contribuir para acelerar estudos clínicos e ampliar a participação do país no desenvolvimento dessas novas terapias.
Especialistas ressaltam, porém, que as vacinas contra o câncer ainda estão em fase de pesquisa e desenvolvimento. Antes de chegarem à população, precisarão passar por todas as etapas de testes clínicos para comprovar segurança e eficácia.