BRASIL — Perfis falsos criados com inteligência artificial têm simulado médicos para disseminar conteúdos de desinformação em saúde e lucrar com visualizações e venda de produtos nas redes sociais. Os vídeos, publicados principalmente em plataformas como TikTok, YouTube, Facebook e Instagram, usam imagens e vozes sintéticas para dar credibilidade a supostos especialistas.
Em um dos casos identificados, um personagem gerado por IA aparece vestindo jaleco branco e recomenda o consumo de suco de batata como tratamento para gastrite, azia e infecção pela bactéria H. pylori. O conteúdo ultrapassou milhões de visualizações antes de ser removido da plataforma.
Outros vídeos seguem o mesmo padrão, com promessas de cura para doenças como catarata, ansiedade e problemas digestivos, utilizando receitas caseiras sem qualquer comprovação científica. Em alguns casos, os conteúdos chegam a afirmar que substituem tratamentos médicos tradicionais, o que é classificado por especialistas como informação enganosa.
Segundo pesquisadores ouvidos na reportagem, o avanço da inteligência artificial reduziu o custo de produção desse tipo de conteúdo e facilitou a criação de personagens fictícios em escala, ampliando o alcance da desinformação.
O modelo de negócio identificado funciona em duas etapas: primeiro, a monetização ocorre por meio de visualizações nas plataformas; depois, usuários são direcionados para grupos em aplicativos de mensagens, onde são vendidos produtos e supostos tratamentos alternativos.
Entre os itens comercializados estão substâncias e suplementos divulgados como terapias milagrosas, sem respaldo científico. Pesquisadores alertam que esse tipo de estratégia transforma a desinformação em um mercado lucrativo, explorando principalmente públicos vulneráveis.
As plataformas afirmam adotar políticas contra desinformação em saúde e dizem remover conteúdos que possam causar danos, além de reduzir a distribuição de vídeos identificados como enganosos. Algumas empresas também informaram que exigem a identificação de conteúdo gerado por inteligência artificial.
O Conselho Federal de Medicina informou que prepara uma ferramenta para monitorar e identificar conteúdos nocivos produzidos por IA, com o objetivo de encaminhar casos para análise e possíveis medidas legais.
Especialistas reforçam que informações sobre saúde devem ser sempre verificadas com profissionais habilitados e que tratamentos sem comprovação científica podem representar risco à população.