
BRASÍLIA — A proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros ligados, direta ou indiretamente, a cadeias produtivas associadas ao trabalho forçado pode gerar impactos significativos para a indústria nacional e para as exportações do país.
A medida foi apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e faz parte de uma investigação que aponta supostas falhas do Brasil na fiscalização de produtos importados que possam ter sido produzidos em condições de trabalho forçado em outros países.
Segundo o relatório americano, a legislação brasileira não possui uma proibição específica que impeça a entrada de insumos ou componentes produzidos sob essas condições no exterior. Para o governo dos EUA, essa lacuna poderia favorecer empresas que operam com custos menores e criar uma concorrência considerada desleal em relação às companhias americanas.
Especialistas alertam que a exigência de rastreamento completo das cadeias produtivas representa um desafio para diversos setores da economia. Isso porque muitas empresas brasileiras utilizam componentes importados de diferentes países, especialmente da Ásia, tornando difícil comprovar a origem de cada item utilizado na fabricação de produtos finais.
O relatório também cita a pecuária brasileira como exemplo, apontando possíveis dificuldades na rastreabilidade da cadeia produtiva. Além disso, relaciona o tema à crescente participação do Brasil no mercado chinês de carne bovina, setor em que o país ampliou significativamente suas exportações nos últimos anos.
Na avaliação de especialistas em comércio internacional, setores com produtos de maior valor agregado, como a indústria automotiva e de equipamentos eletrônicos, podem enfrentar aumento de custos caso sejam obrigados a ampliar os mecanismos de auditoria e fiscalização de fornecedores internacionais.
Outro possível efeito seria a redução da competitividade de empresas brasileiras no mercado americano. Em alguns casos, companhias exportadoras poderiam até reavaliar investimentos ou buscar alternativas para manter presença nos Estados Unidos.
A situação ocorre em meio a um cenário de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. Atualmente, o país já enfrenta outra investigação comercial conduzida pelo governo americano. Caso todas as medidas propostas avancem, as tarifas adicionais sobre produtos brasileiros podem chegar a 37,5%.
O governo brasileiro tem mantido negociações diplomáticas para tentar reverter ou reduzir as sobretaxas, enquanto representantes do setor produtivo defendem uma solução negociada para evitar impactos sobre exportações, empregos e investimentos.